Fazendo amigos em território urso

Você está no país de ursos
Foto daqui.

Você está no território de ursos” dizia a placa substitutiva da clássica frase de boas-vindas na entrada da cidade de Jasper, em Alberta – Canadá. Maio já estava na metade, mas o fim da primavera não deixava nenhuma pista de que o verão estava logo ali: os últimos raios de sol próximo das 21h iam contra o vento gélido da noite chegando – não era primavera, caramba??

Eu e o Júlio estávamos atrasados pro check in. De novo. As atrações pelo caminho eram, na verdade, distrações em forma de lagos azuis-turquesas, florestas em tons de verde variados e [muitas] paisagens de cair o queixo. Não, não foi fácil seguir o roteiro da nossa roadtrip canadense e ir dormir em Jasper. Lutamos com a vontade de ficar na estrada e seguimos o GPS do celular, que apontava para o centro da cidade. De lá seguiríamos para o nosso único hostel da viagem: uma opção que veio pra aliviar o bolso, sim, mas que escolhemos propositalmente pela pura e simples experiência que gostaríamos de ter se hospedando num. Chegamos na avenida principal: uma das poucas ruas da cidade. Checamos o GPS pra descobrir que o hostel ficava mesmo no alto de uma colina, do outro lado da rodovia em que ficava a saída da cidade. Em zigue-zague ladeira acima, aceleramos pra não perder o horário. Estacionamos. No meio da floresta estava a construção de madeira. Subimos a escada só com mochila. Mudar de lugar com frequência na viagem tem dessas: levar mala pro quarto é um luxo que varia de acordo com a acomodação. Tiramos o sapato pra entrar no hostel. Fazia frio pra caramba, mas já não havia quaisquer rastros do calor que fez durante o dia. Esperamos a nossa vez pro check in enquanto o atendente com sotaque estrangeiro declarava orgulhosamente pro hóspede à sua frente que “essa semana tivemos a visita de um urso no estacionamento”. Oi? A calma com que ele disse isso era curiosa e assustadora, mas não intimidou o interlocutor. O cara, na verdade, deu papo (provavelmente pelas mesmas razões que eu pensei) e ainda recebeu um conselho ao estilo “fique calmo e não corra se vir um” com a entonação displicente de quem estava dizendo isso pela enésima vez na vida. Era um conselho genérico (mas válido) que parecia servir pra situações de encontro (in)desejado com a vida selvagem local. Tive que conter a minha excitação à mera palavra “urso”, mas há quase 15 dias que estávamos no Canadá, repenso se teria sido mesmo tãããão legal assim encontrar um (quero – não quero – quero de novo). Reserva checada, o atendente estrangeiro aproveitou para nos  avisar que ia ter uma fogueira mais tarde a alguns metros do hostel, “pra conhecer uma galera e se aquecer na noite fria”. Achei a ideia ótima, mas saímos antes pra comer qualquer coisa na cidade antes que tudo fechasse de vez (e não eram nem 22h ainda).

Voltamos prontos pra descansar depois de um dia cheio de montanhas e trilhas e caminhadas, e demos de cara com a fogueira acesa. “Bora lá?”, coloquei pilha no Júlio. Ele tirou o sapato, desceu pro nosso dormitório misto pra guardar nossas mochilas (a maioria dos mochileiros já estava dormindo, claro) enquanto eu puxei assunto com um garoto e uma garota de cabelos coloridos na área da entrada do hostel: “Será que rola Aurora Boreal por aqui hoje?”. Ela me diz no seu sotaque britânico que eles estavam justamente saindo atrás disso, e iam ficar pela área da fogo à espera. Beleza. Nós partimos até lá e encontramos outras três pessoas reunidas em uns bancos de madeira, jogando conversa fora. Nos apresentamos. Alemanha, Québec, e um outro canadense que morou por 3 meses no Brasil, além dos dois ingleses com quem conversei há pouco.

No mar de sotaques,  cada um contava um pedaço da sua história. O alemão era mochileiro, e viajava há 3 meses pelo Oeste do Canadá sem muito roteiro, sem preconceitos e sem dinheiro (?) his words, not mine Tongue out and winkingPegou 15 dias de chuva, os mesmos 15 dias em que ficou por Vancouver (ou seria Raincouver?). Arrumou carona num barco com um desconhecido em Prince George, uma cidadezinha próxima dali, e viu ursos pelo caminho antes de embarcar num trem que demorou além da conta pra chegar à Jasper. O quebequense viajava à turismo mesmo. Preferia viajar pelo próprio país, porque era “mais barato e ainda havia muito pra se explorar antes de se aventurar por outros países”. Por incrível que pareça, ele tinha um sotaque quando falava inglês, provavelmente pela preferência de falar francês com mais frequência em casa. Já o outro canadense que morou no Brasil estava bem empolgado pra nos mostrar os seus conhecimentos sobre o vocabulário português: caipirinha, “foda pra caralho” e feijoada Emoticon crying tears of joy. Os ingleses, por sua vez, estavam explorando o país depois de terminar um curso temporário. “E a Amazônia, como é?”, algum deles nos perguntou, ao que respondemos um sincero e envergonhado “ainda não fomos”. “Mas o que mais tem pra fazer no Brasil?” foi o próximo questionamento do alemão que, de tão objetivo, não tinha nada de ofensivo mesmo. Sem nos sentirmos mal, falamos um pouco dos lugares incríveis e provavelmente subestimados do nosso país. E tínhamos o canadense empolgado pra reafirmar tudo e somar alguns locais que nem e eu Júlio fomos ainda.

Noite adentro, mais frio, mais fogo e conversa de sobra. Falamos sobre política, [mais] viagens e comida. “Como é o café da manhã típico na Inglaterra?” perguntamos. Nossos colegas britânicos responderam que a culinária inglesa não era das mais conceituadas do mundo: “a gente basicamente chega no local e pergunta se pode fritar o que quer seja que vamos comer”. Risos. Não posso deixar de mencionar Jamie Oliver, só pra me gabar de já ter ido em um restaurante dele na Piccadilly Circus, em Londres (e fazê-los se sentir melhor, claro). De repente rola um barulho na mata. “QUE ISSO?”, pergunta meu marido. Um dos caras aponta a lantecanadian-fast-foodrna pra escuridão e sem pensar duas vezes diz: “esquilo”. Não dava pra ficar mais canadense que isso hahaha. E aí é claro que, por causa desse “barulhinho”, a conversa segue pro lado deles: os ursos.”Quer dizer que o tal do urso grizzly é mais perigoso que o urso preto?”. Nada como ficar alguns dias into the wild pra começar a diferenciá-los rapidinho. “E as garras?”.

Alguns relatos a mais e nossos amigos locais comentam que a gente, na verdade, deveria era se preocupar com as cougars (ou pumas)… Astonished Emoticon “Ah, que ótimo”, penso alto. Chega a 1 da manhã e já está bastante tarde pros padrões canadenses. Nada de aurora boreal. Falamos um tchau rápido e dizemos que a noite foi divertida. Apagamos a fogueira e caminhamos de volta ao hostel. Um papo aleatório com viajantes desconhecidos no meio da floresta nas Montanhas Rochosas. Não é verdade que dizem que as coisas mais simples e inesperadas é que tornam uma viagem memorável? Nada mal pra uma noite fria do quase verão canadense.

hi-jasper Canada hostel

Foto por Seattles Travels.