Sobre zonas de des(conforto) e viagens

Às vezes viajar não tem nada de glamuroso. A gente gasta [muito] tempo se planejando, fazendo malas e se deslocando. São horas a fio sentados numa poltrona de carro, ônibus, trem ou avião e, mesmo no mais confortável assento, são grandes as chances de você se render ao mantra do burro do Shrek mentalmente antes do destino final (Já tá chegando?). E não pára por aí. Basta pisar in loco para declararmos aberta a temporada de perrengues. A barreira da língua (AINDA que você viaje dentro do seu próprio país), da comida, das pessoas que te odeiam por estarem indo pro trabalho num dia normal enquanto você perambula todo alegrinho com cara de quem tá ali só passeando 😜 …. enfim, e isso é só pra listar alguns.

Quem nunca planejou, nos mínimos detalhes, a chegada à hospedagem de um jeito, e que na hora saiu totalmente diferente do previsto? Ainda assim, é só falar em viajar que damos início a um ritual: abrimos mapas no google, estudamos rotas e pesquisamos preços do ticket de transporte público. Mas, chegando ao local, não seria nada estranho nos depararmos com um caixa automático do metrô que não dá troco, com chuva inesperada na saída do aeroporto/estação, com bagagem extraviada. Dá quase tudo diferente do que a gente planejou. E por que raios a gente gosta tanto de viajar, então? Porque dá quase tudo diferente do que a gente planejou, ué. Planejamos A e acabamos tendo que executar B, C ou até DEssa razão que perturba nossos planos é a mesma que tira a gente da zona de conforto, e sair dela significa se abrir para um mundo de possibilidades.

Nada frio em Veneza! ❄️⛄️

Lembro, por exemplo, da nossa chegada “toda esquematizada” à Veneza, durante uma eurotrip de inverno. No aeroporto era “só” pegarmos o ônibus x que nos levaria até a cidade.  Aí descobrimos que o ticket de ida e volta era mais barato. Paramos e pensamos na proposta. Valia a pena. Mas não tínhamos troco. Lá fomos nós em busca de umas moedas em troca da compra de uma garrafa d’água…. só pra descobrir que o ticket de round trip (ida e a volta) tinha validade de apenas alguns dias. E que não iria casar com nossa data de retorno. Compramos apenas uma viagem.  De mala e cuia, seguimos pro ponto. Começou a nevar. É claro que eu vinha checando a previsão de tempo na cidade há quase um mês, e é claro que isso não adiantou muita coisa. Fazia bem mais frio do que estávamos preparados (psicologicamente e fisicamente) para aguentar. E não, certamente eu não tinha ideia do que seria carregar uma mala de rodinhas com gelo ventando bem na minha cara depois de descer no terminal de ônibus mais próximo da cidade. Benvenuti à Venezia. Dali pra frente, só dava pra seguir à pé. Eu ria, toda estabanada e com a cara congelada/molhada, enquanto tentávamos escalar a ponte principal de acesso à cidade que, só pra variar, era feita de degraus, ao invés de ser uma rampa em formato de U. Por último, eu com certeza também não estava preparada para quase cair de bunda no piso da ponte, que estava coberto por uma camada fina e bem escorregadia de gelo.

Mas foi assim que Veneza nos recebeu. E no meio do perrengue a gente seguiu em frente. E na confusão e no frio a gente riu da própria situação. A tão temível zona que extrapola o conforto não é de todo ruim. Verdade que ela nos deixou molhados, cansados e congelados. Mas às vezes  é exatamente disso que a gente precisa pra ser feliz!

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